14
ago

Por
Victor Thadeu

BNCC

O que mudou na alfabetização com a BNCC?

Desde a sua homologação, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) tornou-se o documento normativo mais importante para a educação brasileira. Referência para a elaboração dos currículos de todas as escolas que ofertam Educação Básica no país, a BNCC define os aprendizados essenciais e conduz o ensino das escolas.

Por envolver todo o Ensino Básico, compreendendo da Educação Infantil ao Ensino Médio, a BNCC apresenta algumas reformulações na questão da alfabetização dos estudantes. A proposta está ligada à ideia de progressão de aprendizagem, o que diminui o impacto entre os anos de ensino. A Base ainda altera o tempo para a realização da alfabetização, que antes acontecia até o terceiro ano do Ensino Fundamental. As escolas, portanto, devem buscar compreender o documento e revisar os currículos para realizar uma efetiva adequação à Base.

Neste artigo, confira as mudanças propostas pela BNCC no que diz respeito à alfabetização.


A alfabetização após a implementação da BNCC

A Base Nacional Comum Curricular trouxe algumas contribuições para a alfabetização. O ciclo de alfabetização mostrado de forma clara e a definição de competências e habilidades ligadas ao aprender a ler e escrever são considerações muito ricas para o ensino brasileiro. A seguir, confira as principais alterações e destaques sobre a alfabetização na BNCC.

Tempo de alfabetização

O adiantamento do processo de alfabetização é uma das principais mudanças promovidas pela Base. Se antes a alfabetização terminava no final do terceiro ano do Ensino Fundamental, agora a previsão é de que as crianças já estejam alfabetizadas até o final do segundo ano.

De acordo com a BNCC:

Nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental, a ação pedagógica deve ter como foco a alfabetização, a fim de garantir amplas oportunidades para que os alunos se apropriem do sistema de escrita alfabética de modo articulado ao desenvolvimento de outras habilidades de leitura e de escrita e ao seu envolvimento em práticas diversificadas de letramentos.

Ao focar na alfabetização nos primeiros anos do Ensino Fundamental, há uma ampliação do potencial cognitivo dos estudantes. A criança alfabetizada, inserida na cultura letrada, é mais apta ao desenvolvimento promovido em ambiente escolar. Por estar alfabetizada já no início do terceiro ano, a criança possui maior “autonomia e protagonismo na vida social”.

Consciência fonológica

A BNCC traz à tona o desenvolvimento da consciência fonológica, colocada como peça fundamental para a legítima alfabetização. Compreender e fazer uso dos fonemas do português brasileiro, assim como entender a organização dos fonemas enquanto sílabas e palavras, configura um aprendizado essencial para a alfabetização de crianças.

A partir da formação da consciência fonológica, os alunos conseguem codificar e decodificar os 90 sons da língua portuguesa do Brasil. Esse processo é mais bem desenvolvido por meio de atividades lúdicas com a criança, o que aumenta o significado da aprendizagem e permite uma alfabetização mais rápida.

Mecânica da escrita e da leitura

Somando-se à consciência fonológica, há a necessidade de se conhecer o alfabeto do português. Essa parte sempre foi muito importante para a alfabetização, porém, na Base, é destacada a importância de conhecer as letras em vários formatos no momento da alfabetização. Logo, é necessário expor o aluno ao contato com letras impressas e cursivas, maiúsculas e minúsculas.

Estabelecer a relação entre som e letra, como prioriza o método fônico de alfabetização, representa a forma de conhecer a mecânica da escrita e da leitura. Sendo assim, o aluno alfabetizado deve ter potencial para “perceber as relações bastante complexas que se estabelecem entre os sons da fala (fonemas) e as letras da escrita (grafemas)”. De acordo com a própria Base, essa mecânica não é algo simplório como mostrado em alguns métodos de alfabetização.

Capacidades do alfabetizado

Baseando-se em pesquisas do campo da Alfabetização e Letramento, a BNCC aponta algumas habilidades indispensáveis para caracterizar uma criança que sabe escrever. Ela precisa ser capaz de

  • diferenciar grafismos/desenhos (símbolos) de grafemas/letras (signos);
  • desenvolver a capacidade de reconhecimento global de palavras, que será depois responsável pela fluência na leitura;
  • construir o conhecimento do alfabeto da língua em questão;
  • perceber quais sons se deve representar na escrita e como;
  • construir a relação fonema-grafema: a percepção de que as letras estão representando certos sons da fala em contextos precisos;
  • perceber a sílaba em sua variedade como contexto fonológico desta representação;
  • compreender o modo de relação entre fonemas e grafemas, em uma língua específica.

A criança alfabetizada, portanto, precisa ser capaz de ver o mundo com outros olhos: olhos de quem sabe ler, escrever e interpretar. A formação dos alunos desse período deve se dar de maneira mais complexa, uma vez que envolve toda a questão da consciência gráfica e fonológica.

Gêneros adequados para a alfabetização

A Base, em seus aspectos voltados à alfabetização, apresenta alguns gêneros como mais adequados para os anos iniciais do Ensino Fundamental. Os gêneros a serem trabalhados na sala de aula tanto para leitura e escuta quanto para a produção oral e escrita são mais simples. Os textos do dia a dia, como as listas — de compras, de chamada, de ingredientes —, bilhetes e convites, são indicados principalmente pelo foco na grafia.

Conforme o processo de alfabetização progrida, as cantigas de roda, receitas e regras de jogo são bastante recomendadas. Esses gêneros familiares para o aluno aumentam a compressão dele quanto à importância de se saber ler e escrever. Válido destacar que, de acordo com a BNCC, a pontuação e acentuação e a introdução das classes morfológicas de palavras são iniciadas a partir do 3º ano, portanto, não precisam ser aprofundadas no período de alfabetização.

Ortografização: o complemento da alfabetização

Uma vez que a criança está devidamente alfabetizada, inicia-se a fase de ortografização. Trata-se de um processo complementar que busca a fixação das regras da língua escrita, principalmente do modo como os itens lexicais são expressados por meio das letras do alfabeto. A ortografização representa, portanto, a apropriação do nosso sistema ortográfico da língua portuguesa.

O processo de ortografização, diferentemente da alfabetização, não é estabelecido com um prazo na BNCC:

É preciso também ter em mente que este processo de ortografização em sua completude pode tomar até mais do que os anos iniciais do Ensino Fundamental.

Conclusão

A BNCC busca estabelecer uma progressão na aprendizagem em todo o Ensino Básico. A alfabetização, nesse sentido, começa no Ensino Infantil e ganha maior potência nos dois anos iniciais do Ensino Fundamental. Assim, há uma consideração da antiga lacuna gerada entre esses dois ciclos, que passam a ser claramente complementares.

Além do tempo de alfabetização, a Base define a criança alfabetizada como aquela que, antes de tudo, compreende a diferença entre a escrita e as demais formas gráficas. Conhecer o alfabeto e dominar as relações entre grafemas e fonemas também é fundamental para a vivência em sociedade e formação integral, que aparece de forma transversal em todos os anos de ensino regular.

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